Tecnologias e métodos sustentam a preservação da memória da COVID-19 no Brasil

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Milhões de registros da pandemia de COVID-19 – fotos, vídeos, depoimentos e dados – foram produzidos em ambientes digitais efêmeros e dispersos. Sem métodos adequados de preservação, grande parte desse material corre o risco de desaparecer com o tempo. É diante desse desafio que o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 estrutura uma resposta técnica robusta, combinando padrões internacionais, curadoria especializada e tecnologias abertas para assegurar que essas memórias permaneçam acessíveis às futuras gerações.

A pandemia de COVID-19 se tornou uma das experiências mais intensamente documentadas do século XXI, mas essa memória digital é ao mesmo tempo abundante e frágil. Como destaca o historiador Thiago Nicodemo, coordenador da equipe de preservação digital do Memorial, já se via, desde eventos disruptivos no início do século como o furacão Katrina e o 11 de setembro, uma crescente digitalização da memória social em momentos de ruptura, tendência que se radicalizou com um evento global, longo e capilarizado como a pandemia. “Redes sociais, iniciativas comunitárias, projetos universitários, bases de dados e registros institucionais se somaram em poucos anos a um vasto patrimônio documental digital, produzido em grande medida fora de arquivos e museus tradicionais, por cidadãos, coletivos e movimentos espalhados pelo país”, destacou.

Mas essa abundância de registros digitais cria também um risco real de desaparecimento, seja pela obsolescência tecnológica, pela dependência de plataformas privadas, pela precariedade do armazenamento ou pela ausência de organização arquivística e de metadados que garantam sua integridade e acessibilidade no futuro. Nesse contexto, o Memorial Digital busca articular políticas de memória, padrões internacionais e infraestrutura tecnológica para transformar acervos dispersos em um arquivo digital confiável, acessível e sustentável.

Como o Memorial Digital transforma arquivos digitais em acervo preservado

Por trás do portal de acesso público está uma infraestrutura que combina duas plataformas de código aberto consolidadas para a gestão de acervos digitais: o Archivematica e o Tainacan.

O Archivematica é responsável pelos processos de preservação digital, incluindo a ingestão dos arquivos, a identificação de formatos, a extração de metadados técnicos e a garantia de integridade da informação ao longo do tempo. Já o Tainacan, tecnologia brasileira de software livre, organiza e disponibiliza os acervos aos usuários, oferecendo ferramentas de busca, filtros e navegação por coleções.

A integração entre essas plataformas segue o modelo internacional OAIS (Open Archival Information System), referência para repositórios digitais confiáveis. Esse modelo garante que todo o ciclo – da ingestão ao acesso público – seja documentado, rastreável e auditável.

Metadados e interoperabilidade

Além da infraestrutura tecnológica, o Memorial Digital adota uma política robusta de metadados que assegura que cada item digital seja compreendido, contextualizado e reutilizado no futuro.

O sistema combina o padrão Dublin Core para descrição, o PREMIS para registro de eventos de preservação e direitos, e o METS como estrutura de organização dos pacotes digitais. Esses elementos permitem que cada documento circule acompanhado de informações técnicas, jurídicas e arquivísticas essenciais.      

No contexto da pandemia, o uso do vocabulário Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) amplia a capacidade de indexação temática e aproxima o acervo das redes de informação em saúde. Na prática, isso facilita a descoberta e o uso dos materiais por pesquisadores, gestores e profissionais da área, além de promover a interoperabilidade com outras bases nacionais e internacionais.

Segurança a longo prazo

Preservar não significa apenas armazenar. Para garantir a integridade e a disponibilidade dos registros no longo prazo, o Memorial Digital adota um conjunto de estratégias técnicas e operacionais. Entre elas estão a priorização de formatos abertos e amplamente adotados, rotinas automatizadas de verificação de integridade por meio de criptografia, controle de versões e políticas de backup baseadas na regra 3-2-1 que prevê múltiplas cópias em diferentes mídias e locais.

Uma matriz de riscos complementa essas ações, identificando e mitigando ameaças como obsolescência tecnológica, falhas de infraestrutura, desastres físicos e descontinuidade institucional. Com isso, o projeto se prepara para garantir a continuidade do acervo independentemente de mudanças tecnológicas ou organizacionais.

Curadoria, direitos e organização dos acervos

A preservação digital também depende de processos rigorosos de curadoria e gestão documental. Antes da incorporação de qualquer acervo, a equipe do Memorial Digital trabalha junto a doadores e projetos para definir termos de cessão, níveis de acesso e, quando necessário, estratégias de anonimização.

Em seguida, fluxos padronizados orientam a organização dos arquivos, o enriquecimento de metadados e a validação das informações. Todo o processo segue diretrizes legais e éticas, incluindo a Lei de Acesso à Informação (LAI) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), assegurando transparência e proteção dos direitos envolvidos.

O historiador Ian Marino, coordenador de curadoria e arquivamento do Memorial, destaca: “A constituição do acervo é indissociável da proteção de dados e dos direitos autorais da documentação recolhida. Esse é um Memorial composto por registros feitos pelas próprias pessoas em momentos de extrema sensibilidade. O primeiro compromisso do Memorial é com essas pessoas, com o seu direito à memória, mas, também, com a proteção de seus dados sensíveis e com a sua autoria. O povo brasileiro é o protagonista do Memorial Digital da Pandemia.”

Uma infraestrutura para o futuro da memória digital

Ao combinar políticas públicas de memória, padrões internacionais e tecnologias abertas, o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 se consolida como uma iniciativa inovadora na gestão de acervos digitais complexos e sensíveis.

A infraestrutura desenvolvida é escalável, adaptável a novos formatos e replicável por outras instituições que enfrentam desafios semelhantes. Mais do que preservar documentos, o Memorial Digital estabelece uma base técnica e institucional para que experiências coletivas não se percam e continuem informando pesquisas, políticas públicas e processos educativos.

Assim, ao transformar registros dispersos em patrimônio acessível, o Memorial Digital evidencia que preservar a memória digital não é apenas um desafio técnico, mas um compromisso com o conhecimento, a transparência e a construção de uma sociedade mais preparada para o futuro.


“Redes sociais, iniciativas comunitárias, projetos universitários, bases de dados e registros institucionais se somaram em poucos anos a um vasto patrimônio documental digital, produzido em grande medida fora de arquivos e museus tradicionais, por cidadãos, coletivos e movimentos espalhados pelo país.”

Thiago Nicodemo, coordenador da equipe de especialistas em preservação digital da Unicamp.