Nossa metodologia

O Memorial funciona como um repositório e um portal que reúne e dá acesso a informações, dados, exposições e documentos em diversos formatos, como textos, áudios, vídeos, fotografias e produções artísticas. O acervo constituído a partir de projetos comunitários, institucionais e acadêmicos recebe tratamento arquivístico, garantindo a preservação permanente desses documentos.

Construir um Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 no Brasil a partir de coleções criadas por pessoas de diversas regiões do país não tem sido uma tarefa simples. Assim como a pandemia, o surgimento de diversas iniciativas de registro da experiência pandêmica, a partir de meados de 2020, foi emergencial. Cada projeto se desenvolveu à sua maneira, com características muito próprias. Essas iniciativas não foram pensadas, inicialmente, para estarem lado a lado, como estão hoje no Memorial. A história da constituição de um Memorial Digital, então, envolveu a identificação e a superação de muitos desafios — técnicos, tecnológicos, conceituais e, enfim, humanos. No entanto, ao longo do processo, houve o crescente entendimento de que o Memorial é mais do que necessário para lidarmos com a memória traumática da experiência brasileira com a COVID-19.

Pioneiro nesse quesito, o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 no Brasil desenvolveu uma metodologia própria, resultante do trabalho de muitas mãos. Hoje, o Memorial é uma realidade, e a sua metodologia pode servir de inspiração para outros arquivos e memoriais pelo mundo, já que, com a transformação digital, não faltam desafios de integração de informações de forma participativa e sustentável.

Identificando memórias

O primeiro passo para a criação do Memorial foi a identificação dos projetos que, desde 2020, passaram a compor coleções com diferentes tipos de registros que documentaram a pandemia em tempo real. Essa etapa de identificação foi realizada colaborativamente pelo projeto Coronarquivo, criado em 2020 por pesquisadores do Centro de Humanidades Digitais (Unicamp). Desde então, o Coronarquivo monitora 120 projetos de memória da pandemia de COVID-19 na América Latina.

Contatando e dialogando com os projetos

Identificados os projetos, o Memorial Digital passou a contatar seus criadores para convidá-los a compor um acervo para tratamento técnico, preservação e acesso, partindo do princípio de que todas as memórias da pandemia são dignas de preservação. Iniciamos o projeto priorizando iniciativas que representassem a diversidade de grupos sociais, tipos de documentos e regiões, bem como a urgência de preservação de registros que estivessem sob risco de se perderem.

O diálogo estabelecido, em todos os casos, vem sendo realizado de forma respeitosa e humilde: afinal de contas, se o Memorial Digital oferece aos projetos a infraestrutura necessária para a preservação digital, os protagonistas de nosso acervo são as pessoas que desde 2020 vêm lutando para documentar a pandemia à sua maneira. O Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 não coleta nenhuma coleção sem a participação voluntária e ativa de seus criadores — elemento central da nossa metodologia.

Cooperação e coleta 

Após os acordos de cooperação, iniciam-se os trabalhos de preparação dos documentos para a coleta e tratamento técnico. A documentação de cada projeto é identificada e, respeitando as especificidades dos documentos produzidos, desenvolvem-se soluções de recolhimento para que os projetos se configurem em coleções documentais para compor o acervo do Memorial Digital. Esse trabalho é feito em parceria ativa com os criadores dos projetos de memória, com muito diálogo para mapear os seus contextos de produção e difusão dos documentos e para estabelecer parâmetros legais e éticos para a coleta e início da qualificação das coleções para o arquivamento. 

Essa etapa é fundamental para garantir a preservação das coleções, respeitando o contexto de produção dos documentos, a proveniência, a qualidade informacional e o legado de cada projeto original. O processo de coleta é cuidadoso, pois deve garantir a integridade e a autenticidade dos documentos. A participação ativa dos produtores das coleções é também fundamental para que o Memorial Digital seja efetivamente construído colaborativamente.

Tratamento arquivístico

Após realizada a preparação dos documentos para a coleta, as coleções são transferidas para o acervo do Memorial. Nesta etapa, tem início o trabalho de catalogação dos documentos recebidos, seguindo parâmetros respaldados por diretrizes internacionais. Em se tratando de documentos digitais, eles ingressam em um fluxo de preservação sistêmica rigoroso, envolvendo o uso de softwares de ponta e de código aberto — como o Archivematica. O objetivo aqui é garantir que as coleções de memórias da pandemia sejam preservadas para a posteridade, sem deixar de lado as informações contextuais que permitem compreender a própria história desses registros.

Conheça os detalhes em nosso Plano de Preservação e Acesso ao Acervo

Disponibilização ao público

Com as coleções devidamente tratadas e preservadas, inicia-se a última etapa para a realização do Memorial Digital: a disponibilização dos documentos, compondo o acervo disponível neste Portal Digital. Aqui, cada coleção possui uma página especial, construída com participação ativa de seus criadores — os personagens principais do Memorial — e dedicada à expressão de suas identidades. 

Além disso, nosso Portal Digital é um mecanismo de busca que permite ao usuário encontrar documentos de diversas coleções em conjunto, tornando possível a identificação de pontos de contato entre diferentes tipos de coleções e documentos — formando um Memorial diverso e coeso. O acesso e a difusão do acervo do Memorial Digital finalizam seu ciclo, concretizando uma metodologia que parte das memórias das pessoas e, então, torna possível a preservação e a disponibilização dessas memórias, contribuindo com a consolidação da cidadania plena em nosso país.