Sem os profissionais da saúde seria pior
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Na coleção, composta por relatos textuais sobre a experiência da pandemia de COVID-19, os textos foram produzidos por lideranças, enfermeiros, estudantes, professores, idosos e jovens dos povos Apalai, Galibi Kalin’a, Galibi-Marworno, Karipuna, Palikur-Arukwayene, Tiriyó, Kaxuyana e Waiãpi. As narrativas conferem visibilidade à situação sanitária das aldeias e refletem, em tempo real, as transformações vivenciadas nas terras indígenas durante o período pandêmico.
O conjunto documental preservado no Memorial é composto por dois dossiês: as versões textuais publicadas, em 2021, no livro Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós, e os registros em capturas de tela dos relatos divulgados na página do PET-Indígena da UNIFAP, no Facebook, que incluem traduções e fotografias dos depoentes.
Os relatos resgatam memórias do período da pandemia: rememoram o longo período das experiências de medo e morte decorrentes de epidemias; permitem acompanhar como a COVID-19 atingiu as comunidades e o atendimento pelos órgãos governamentais; evidenciam o uso das redes sociais pelos indígenas como meios de autoria e circulação de informações sobre sua cultura; revelam estratégias próprias de enfrentamento da pandemia, com o uso das medicinas tradicionais; e registram o papel das mulheres e dos pajés e as dificuldades de acesso à internet.
Esse conjunto documental acaba por se configurar em uma “coleção de testemunhos”, como bem denominou Rita Becker Lewkowicz, no prefácio do livro Fala Parente…, a partir de Veena Das: “em que o ato de testemunhar é entendido como forma de sobrevivência, ao narrar situações extremas que afetam não só subjetividades, mas o tecido social como um todo”.
O projeto foi coordenado pela professora Elissandra Barros e teve origem no âmbito do Programa de Educação Tutorial do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena (PET Indígena), da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), sediado no Campus Binacional de Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa.
As atividades foram desenvolvidas por estudantes vinculados ao PET que tiveram que retornar às suas aldeias para cumprir a orientação de distanciamento social junto às suas famílias. Assim, em diferentes terras indígenas e aldeias da região do Oiapoque (AP), foram coletados depoimentos em português em áudio, vídeo e por escrito que, em seguida, passaram por transcrição e tradução para o inglês, francês e espanhol e foram publicados, em 2020, na página do PET no Facebook. Essa página já existia como resultado do projeto de extensão Fala Parente!, que integrou a proposta de coleta e publicação dos depoimentos.
Os depoimentos publicados diariamente entre 21 de maio e 29 de agosto de 2020 tiveram ampla repercussão, estimulando a equipe que entendia a atividade como uma forma de “ouvir as comunidades, visibilizar suas aflições e de ir além dos números frios e indiferentes sobre a COVID-19, anunciados com frequência nos principais meios de comunicação”, como conta Elissandra Barros, coordenadora do projeto. Os relatos, no momento de publicação, eram também fontes de informação sobre a situação vivenciada nas diferentes comunidades e registravam as transformações rápidas decorrentes dos processos de infecção, adoecimento e morte causados pelo vírus e em contexto de falta de assistência externa.
“Não foi fácil para nós, enquanto grupo, a divulgação dos relatos dos parentes. A carga emocional dos relatos é muito grande, não é fácil falar de um momento tão difícil pelo qual todos estavam passando e que envolve sentimentos tão fortes quanto dor e medo. A divulgação dos relatos não poderia ter sido feita sem uma relação de confiança mútua entre o PET-Indígena e as comunidades, construída ao longo dos anos e para a qual o trabalho do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena tem grande mérito.” (Elissandra Barros)
A composição dessa coleção é resultado de um trabalho coletivo e voluntário, que possibilitou a escuta e o registro de múltiplas vozes vindas do extremo norte do país durante a maior crise sanitária vivida neste século.
PET Indígena/UNIFAP
Transcrição
Tradução
Entrevista com Elissandra Barros, Diogo Monteiro dos Santos, Ilda Silva Pastana e Keila Felício Iaparrá, concedida à Amanda Montezino, no dia 05 de julho de 2022, por vídeoconferência, Campinas-SP/Macapá-AP.
(...) será que nós vamos ter que fugir de novo, como fizemos no passado, quando surgiu o sarampo na nossa aldeia?”
Visibilizar os casos da COVID-19 entre os povos indígenas foi a nossa motivação para começar esse projeto. Foram cem relatos, cem histórias contadas diariamente, em mais de três meses de divulgação. Relatos com nome, aldeia, povo e identidade, porque é preciso mostrar, acima de tudo, que somos pessoas, somos gente, não somos números! Agradecemos a todos que nos acompanharam e que ajudaram a contar essas histórias.
Participar dos relatos e ler os relatos dos parentes foi além de só ouvi-los, foi poder dividir com eles preocupações e medos, poder de alguma forma ajudar a desabafar, porque não é fácil viver na situação que nos encontramos hoje. Acabamos ficando abalados por completo
Não foi fácil para nós, enquanto grupo, a divulgação dos relatos dos parentes. A carga emocional dos relatos é muito grande, não é fácil falar de um momento tão difícil pelo qual todos estavam passando e que envolve sentimentos tão fortes quanto dor e medo. A divulgação dos relatos não poderia ter sido feita sem uma relação de confiança mútua entre o PET-Indígena e as comunidades, construída ao longo dos anos e para a qual o trabalho do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena tem grande mérito.
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