Vozes da pandemia

O Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 reúne depoimentos de cidadãs e cidadãos, profissionais de saúde e familiares sobre suas experiências, memórias e vivências durante a pandemia, preservando histórias e reflexões sobre esse período marcante da história.

Josilene da Silva Nunes

(…) sou vice-coordenadora da Articulação do Rio Oiapoque (AIRO), onde trabalho com duas terras indígenas – Galibi e Juminã –, cinco aldeias e os povos Galibi-Marworno, Karipuna e Galibi Kalinã (…). Aqui nós mesmos fazemos coleta de gasolina para visitar outras aldeias, como a Aldeia Ariramba, que também precisa de apoio devido aos idosos que sofrem de diabetes e hipertensão. Minha saída da aldeia é sempre devido a necessidade de nos articular junto às outras lideranças.

26 de junho de 2020, Aldeia Uahá, Terra Indígena Juminã, Oiapoque, Amapá, Brasil.

Josilene da Silva Nunes, indígena da etnia Galibi-Marworno

Rosineide Narciso

(…) Trabalhei duas semanas orientando meus pacientes hipertensos, diabéticos e grávidas a ficarem em casa, em quarentena, para não ter contato com o vírus. Comecei a fazer a orientação dentro de casa para meus filhos, dizia para quando sairem sempre usarem máscaras, não lanchar fora de casa, chegar em casa e lavar as mãos….(…). Depois de um tempo com tudo isso acontecendo tive ansiedade, insônia e quase um início de depressão (…). Os profissionais de saúde foram os que mais sofreram e ainda sofrem nessa pandemia. Perdemos médicos, enfermeiros, agentes de saúde, técnicos… mas eu estou aqui firme e forte! Eu acredito em dias melhores.

25 de Agosto de 2020, Oiapoque, Amapá, Brasil

Rosineide Narciso, indígena da etnia Galibi-Marworno, Agente Comunitária de Saúde na região de Oiapoque

Dalson dos Santos

Logo depois o Cacique Gilberto passou ruim também. Eu ficava sempre orientando o meu avô, minha avó, minha esposa, meus filhos, dizendo que essa doença iria passar, que era para tomar nossos remédios. Esses remédios são ruins, muito amargos, mas assim mesmo a gente tomava. Com isso foi tudo melhorando, eu sempre falando para a gente não desistir e se alimentar, porque a doença não queria que a gente se alimentasse, mas se não se alimentar fica cada vez mais fraco. A gente tentava comer o pouco que a gente podia, sem sentir gosto, sem sentir cheiro, era difícil. Meu avô doente, minha avó doente, minha esposa doente, isso foi aumentando a preocupação em casa, o desespero.

13 de agosto de 2020, Aldeia Manga, Terra Indígena Uaçá, Oiapoque, Amapá, Brasil,

Dalson dos Santos, liderança indígena da etnia Karipuna

Mãe de aluno de escola pública

Por aqui continuamos na missão de não perder nenhuma aula, mas seguimos devagar, porque realmente esse não é o momento mais tranquilo não… não vou ficar aqui romantizando. Tem sido puxado. Ele resiste.. Sempre que possível acabo cedendo e por esse motivo acabamos criando um calendário paralelo. Ontem, 11/05, meu filho acompanhou as aulas dos dias 24 e 25/04, mas chamou reforços.

No meio de toda a confusão de aula online, ele me perguntou: já que estou tendo todas essas aulas em casa, não vou precisar ir pra escola quando as aulas voltarem né? Apesar de toda a resistência (e falta de total compreensão da nova rotina), é legal ver ele repetindo assuntos das aulas em momentos aleatórios. Agora a pouco ouvi ele falando com um amigo via whats e do nada mencionou Ana Maria Machado hahahaha

Não tá facil pra nenhum dos envolvidos, mas com certeza tá pior ainda pras pessoas com pouco acesso à internet, uma vez que se tornou altamente indispensável pra quem é obrigado a acompanhar aulas online durante esse período. E aí? Como fazer, né?

12 de maio de 2020, Curitiba, PR

Mãe de aluno de escola pública

Elissandra Barros

Visibilizar os casos da COVID-19 entre os povos indígenas foi a nossa motivação para começar esse projeto. Foram cem relatos, cem histórias contadas diariamente, em mais de três meses de divulgação. Relatos com nome, aldeia, povo e identidade, porque é preciso mostrar, acima de tudo, que somos pessoas, somos gente, não somos números! Agradecemos a todos que nos acompanharam e que ajudaram a contar essas histórias.

Tutora do PET-Indígena da Universidade Federal do Amapá (Unifap)

Elissandra Barros, antropóloga e tutora do PET-Indígena da Unifap

Mana Lucena Suarez

Para o meu filho, uma das grandes queixas e um dos maiores fatores de baixo aproveitamento das aulas online, é o distanciamento afetivo. Ter aulas com Professoras totalmente desconhecidas, causa muito estranhamento e dificuldade de aceitação. Continuamos com um mês de atraso no acompanhamento das aulas, por conta desses e outros problemas que cria no momento de ver os vídeos. Estou prezando pelo nosso bem-estar, tentando minimizar situações de estresse. Então, dependendo do nível da queixa, eu considero. No momento, estamos assistindo as aulas do começo de maio. Prefiro seguir nesse ritmo mais lento e ter certeza do bom aproveitamento.

Pensando em diminuir essa lacuna e a frieza que as telas proporcionam, já que não tem outra saída, estou pouco a pouco localizando as Professoras responsáveis pelas aulas que meu filho acompanha. Dia desses postei uma atividade do meu filho no meu facebook pessoal. Consegui localizar a Prof. e mostrei a atividade pra ela. Imagino que o dia a dia dela não esteja dos mais calmos. Entenderia perfeitamente se ela não tivesse respondido nada, afinal, era uma tentativa. Mas, pra nossa surpresa, ela não só respondeu como foi extremamente atenciosa e carinhosa, enviando uma carta personalizada pro meu filho. Criando exatamente o vínculo que ele esperava e precisava nesse momento. As aulas de História ele não perde mais!

Com autorização dela, segue cópia da carta!

Mana Lucena Suarez, mãe de aluno e uma das idealizadoras da página do Facebook Escola em quarentena

Cristina Meneguello

No último texto que a Olimpíada Nacional em História do Brasil – ONHB deixou, naquele ano de 2020, para os participantes, comentamos: talvez não fosse essa a forma historiográfica mais adequada para lidar com a história do tempo presente, mas era evidente que a pandemia estava gerando, em tempo real e na chave do testemunho, seus próprios registros – que poderiam vir a ser trabalhados um dia, documentos históricos. A publicação deste acervo cumpre, ao menos em parte, esta promessa.

Cristina Meneguello, coordenadora geral do Projeto Diários da pandemia - Olimpíada Nacional em História do Brasil

Gildo da Silva

Lutamos contra o covid e tivemos que lutar pela nossa permanência aqui, foi um abalo total na nossa vida (…) um impacto muito desgastante e não aceito por nós.

Se eu tenho o que comer, a roupa que eu visto, eu agradeço esse local. A Rocinha é uma mãe e daqui tiro meu sustento.

50 anos, microempresario e coordenador do Mercado Popular da Rocinha

Gildo da Silva, 50 anos, microempresario e coordenador do Mercado Popular da Rocinha

Jennifer e Maria Alice

A quarentena nos trouxe uma sobrecarga de sentimentos e sensações muito intensas. Fora que nos deixou mais nostálgicos, angustiados e ansiosos querendo expor tudo que está sendo sentido nesse período. Para nós favelados, não ter um espaço que mostre as infinitas Rocinhas que existem é triste. Com isso, quisemos ser esse veículo de lembranças, fazer um acervo de relatos com outros moradores no local em que todos estão interligados atualmente.

Jennifer Monteiro e Maria Alice Balbino, moradoras da Rocinha, idealizadoras do Instagram Varal de emoções