Coleções do Memorial revelam experiências e memórias da pandemia no Brasil
Das terras indígenas do Oiapoque às ruas do Rio de Janeiro e às casas transformadas em salas de aula, as coleções do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 reúnem relatos, imagens e registros que documentam, a partir de múltiplas perspectivas, as experiências vividas no Brasil durante a crise sanitária. Para reunir e organizar esse conjunto diverso de experiências, o Memorial Digital articula materiais de naturezas muito distintas, do registro cotidiano à documentação oficial, sempre a partir de critérios técnicos, legais e éticos que buscam garantir preservação, acesso democrático e proteção de pessoas e comunidades envolvidas.
Nesse conjunto, ganham destaque os projetos de memória criados “em tempo real” por coletivos, pesquisadores e movimentos sociais, que transformaram redes sociais, fotografias e diários em arquivos intencionais sobre viver, adoecer, cuidar e lutar durante a pandemia. As três primeiras coleções disponibilizadas no portal – “Fala, Parente! A COVID-19 chegou entre nós”, “Vidas Importam” e “Escola em Quarentena” – exemplificam, cada uma à sua maneira, essa vocação de registrar experiências situadas e, ao mesmo tempo, revelar dimensões estruturais da pandemia.
Fala parente! A COVID-19 chegou entre nós!
reúne cem relatos textuais de lideranças, enfermeiros, estudantes, professores, idosos e jovens dos povos Apalai, Galibi Kalin’a, Galibi-Marworno, Karipuna, Palikur-Arukwayene, Tiriyó, Kaxuyana e Waiãpi, narrando em primeira pessoa a chegada da COVID-19 às terras indígenas da região do Oiapoque, no extremo norte do país. Os depoimentos foram coletados por bolsistas do Programa de Educação Tutorial-Indígena (PET) do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), em formatos como textos, fotografias, áudios e vídeos. Publicados diariamente entre maio e agosto de 2020 na página do grupo no Facebook, esses registros foram posteriormente reunidos no livro “Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós” (2021), em versões que incluem traduções para inglês, francês e espanhol.
Esses testemunhos acompanham, quase em tempo real, o avanço das infecções, o luto e as respostas comunitárias, e também resgatam memórias de epidemias anteriores, denunciam o descompasso entre necessidades urgentes e a atuação dos órgãos governamentais, evidenciam o uso das redes sociais como meio de autoria indígena e registram estratégias próprias de enfrentamento, como a retomada e o compartilhamento de remédios tradicionais, o papel das mulheres e dos pajés e as dificuldades de acesso à internet.
Como destaca Elissandra Barros, professora do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da UNIFAP e tutora do PET-Indígena, no prefácio do livro: “À medida que a COVID-19 se espalhava os relatos foram mudando de tom, tornando-se mais dramáticos e dolorosos. A contaminação pelo coronavírus era uma realidade e os relatos passaram a descrever os desafios cotidianos e a batalha de pessoas, famílias e aldeias contra a COVID-19, algumas delas perdidas. Começaram a surgir entre os indígenas as ‘vítimas da COVID’, com elas o sentimento de impotência e o luto compartilhado entre todos. O relato das mortes carrega, além da dor, a revolta, principalmente quando as comunidades em que estas ocorreram encontravam-se em um contexto de pouca ou nenhuma assistência médica e/ou governamental, como tantas vezes é mencionado. Um dia a história nos dirá quantas dessas vidas poderiam ter sido poupadas”.
“Vidas importam, fotografias de Erbs Jr.”

Esta coleção desloca o olhar para a cidade do Rio de Janeiro, por meio de um vasto ensaio fotográfico em preto e branco produzido pelo fotojornalista e historiador Carlos Erbs Jr. Reunindo cerca de 110 fotografias, em grande parte publicadas no livro “Vidas Importam – Memória visual da pandemia de COVID-19 no Rio de Janeiro” (2021), o projeto registra desde o início das medidas de isolamento social até a fase de testagens em massa. Os arquivos incluem ações de solidariedade, campanhas de vacinação, manifestações, cenas de luto e de negação, revelando, em imagens, a complexa dinâmica social, política e humana da pandemia na cidade.
O projeto acompanha órgãos públicos, movimentos comunitários, profissionais de saúde, iniciativas acadêmicas e grupos negacionistas, e articula documentação jornalística rigorosa com consciência histórica. Como sintetiza o autor, trata-se de “um documento político de tudo o que vivemos”, realizado sob risco pessoal e marcado pela percepção de que se vivia um acontecimento comparável, em impacto, à gripe espanhola um século antes. Ao percorrer a coleção, o visitante é convidado a revisitar espaços urbanos vazios e superlotados, gestos de proteção e descaso, e a refletir sobre a necessidade de lembrar “cada vítima, cada negligência” para que erros não se repitam em futuras crises sanitárias.
Escola em quarentena: um registro antropológico de memórias educacionais

A coleção por sua vez, desloca o foco para o universo educacional, abordando o impacto do cotidiano do ensino remoto para toda a comunidade escolar (pais, professores, estudantes e técnicos), por meio de relatos publicados em um grupo fechado no Facebook, criado em abril de 2020 pelas pesquisadoras Juliane Bazzo, Kelli Schmiguel e Mana Lucena Suarez. A coleção reúne textos, fotografias e alguns vídeos produzidos por mais de 500 participantes, que transformaram a rede social em um espaço de compartilhamento de dilemas, adaptações e afetos relacionados ao ensino remoto, à reorganização das rotinas domésticas e profissionais, ao manejo de tecnologias e à manutenção de vínculos pedagógicos e afetivos, em um tempo que “fugia completamente ao ordinário”.
Vinculado ao blog de divulgação científica Primavera nos dentes, o projeto incorporou ferramentas etnográficas, como observação sistemática, escuta atenta e enquetes temáticas para organizar as postagens em narrativas originais, compondo um arquivo colaborativo que evidencia tanto a sobrecarga de docentes e famílias quanto às tentativas criativas de contornar, cotidianamente, os desafios impostos pela pandemia. Ao preservar esses registros, o Memorial oferece uma janela para as experiências de escola vividas “do lado de dentro” da quarentena, mostrando como a escrita de relatos das experiências individuais em posts, comentários e fotos se tornou também um modo de elaborar incertezas, ansiedades e esperanças ligadas ao futuro da educação.
Reunidas, estas três primeiras coleções que compõem o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 mostram a amplitude e a densidade do acervo: das comunidades indígenas no extremo norte às metrópoles do Sudeste, das salas de aula virtuais às ruas, diferentes sujeitos tomam a palavra para transformar experiências pandêmicas de vulnerabilidade, resistência e cuidado em memória coletiva. Elas ilustram como projetos produzidos durante a pandemia, criados por comunidades, pesquisadores e profissionais comprometidos, constituem documentos fundamentais para compreender não apenas o que aconteceu, mas também como as pessoas quiseram registrar e transmitir esse tempo às gerações futuras.
O Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 é uma iniciativa do Ministério da Saúde, desenvolvida por meio do Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS/ CGDI/ SAA/ SE/ MS), com execução técnica do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (BIREME/ OPAS/ OMS) e do Centro de Humanidades Digitais da Universidade Estadual de Campinas (CHD/ Unicamp). Saiba mais sobre a cooperação interinstitucional na notícia Entre registros e memórias: Memorial Digital da Pandemia da COVID-19 salvaguarda vivências do período pandêmico.
“À medida que a COVID-19 se espalhava os relatos foram mudando de tom, tornando-se mais dramáticos e dolorosos. A contaminação pelo coronavírus era uma realidade e os relatos passaram a descrever os desafios cotidianos e a batalha de pessoas, famílias e aldeias contra a COVID-19, algumas delas perdidas. Começaram a surgir entre os indígenas as ‘vítimas da COVID’, com elas o sentimento de impotência e o luto compartilhado entre todos. O relato das mortes carrega, além da dor, a revolta, principalmente quando as comunidades em que estas ocorreram encontravam-se em um contexto de pouca ou nenhuma assistência médica e/ou governamental, como tantas vezes é mencionado. Um dia a história nos dirá quantas dessas vidas poderiam ter sido poupadas.”
Elissandra Barros, professora do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da UNIFAP e tutora do PET-Indígena, no prefácio do livro “Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós”.
