Entre registros e memórias: Memorial Digital da Pandemia da COVID-19 salvaguarda vivências do período pandêmico
Durante a pandemia da COVID-19, diferentes grupos sociais produziram e compartilharam registros sobre suas vivências em um contexto marcado por incertezas, perdas e transformações profundas no cotidiano. Sentimentos como nostalgia, aflição, solidão, luto e indignação passaram a integrar o dia a dia da população e foram amplamente documentados em redes sociais, como Facebook, Instagram e WhatsApp, constituindo um vasto e diverso acervo digital do período.
Além de expressarem experiências individuais, essas plataformas desempenharam papel central na visibilização de vivências coletivas, especialmente de grupos historicamente afetados por desigualdades estruturais e injustiças sociais, como o racismo, o machismo, preconceitos étnicos e outras formas de violência. No entanto, apesar de sua relevância como espaços de expressão e memória, as redes sociais apresentam fragilidades para a preservação e o uso de longo prazo desses conteúdos, seja por mudanças em sua gestão e configurações, seja pela suspensão inesperada de perfis e arquivos. “Quanto mais a sociedade passa a operar por interfaces digitais, e-mail, WhatsApp, redes sociais, mais efêmeras ficam as evidências da nossa experiência, e paradoxalmente, quanto mais difícil se torna preservar a memória, mais necessária ela passa a ser”, diz Thiago Nicodemo, coordenador da equipe de preservação digital do projeto.
Cooperação para preservar a memória brasileira sobre a COVID-19
É nesse contexto que se insere o Memorial Digital da Pandemia da COVID-19, uma iniciativa do Ministério da Saúde (MS) do Brasil, realizada por meio do Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS), em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e execução técnica do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME/OPAS/OMS), e de especialistas em História e preservação digital da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
“O Memorial Digital foi projetado com a intenção de salvaguardar, em um lugar seguro, as memórias da pandemia. O nosso objetivo foi criar um espaço onde as pessoas pudessem depositar seus registros e, posteriormente, consultar esse material de forma rápida e simplificada”, destaca Ian Marino, coordenador de curadoria e arquivamento do projeto.
A garantia do direito à memória e o fortalecimento da justiça social orientam a iniciativa. Isso porque o Memorial Digital garante a visibilidade de narrativas que são historicamente marginalizadas no país, como as vivências documentadas por povos indígenas, populações de territórios distantes dos centros urbanos e moradores de favelas.
Segundo Nicodemo, “no Memorial Digital da Pandemia, não há uma única voz decidindo o que deve ser contado: o que existe é a preservação daquilo que as próprias pessoas escolheram registrar. Essa memória segue se ressignificando com o tempo, porque também mudam os sentidos que a sociedade atribui ao trauma vivido. Por isso, o memorial é mais do que arquivo: ele é uma ferramenta coletiva para elaborar, processar e enfrentar as marcas de um trauma histórico.”
Esse compromisso se materializa nas coleções que integram o Memorial Digital. Entre elas, destaca-se o projeto Fala Parente, que reúne registros produzidos por povos indígenas durante a pandemia, evidenciando experiências, estratégias de cuidado e formas de resistência em seus territórios. Para Luene dos Santos Karipuna, membro do projeto Pet-Indígena da UNIFAP, “participar dos relatos e ler os relatos dos parentes foi poder dividir com eles preocupações e medos, poder de alguma forma ajudar a desabafar, porque não é fácil viver na situação que nos encontramos hoje.” Já a experiência de Cleisy Narciso Silva, ao refletir sobre uma pergunta de sua avó, evidencia a insegurança que atravessava diferentes comunidades: “Será que nós vamos ter que fugir de novo, como fizemos no passado, quando surgiu o sarampo na nossa aldeia?”.
Primeiras coleções refletem a diversidade de memórias preservadas
As primeiras coleções disponíveis no Memorial Digital ampliam essa diversidade de experiências e territórios. No momento de seu lançamento, três coleções estão publicadas no repositório digital: “Escola em quarentena: um registro antropológico de memórias educacionais”, com relatos de pais, professores, alunos e técnicos da educação; “Vidas Importam, fotografias de Erbs Jr.”, composta por fotografias em preto e branco produzidas pelo fotojornalista e historiador Carlos Erbs Jr.; e “Fala Parente! A COVID-19 chegou entre nós”, com cem relatos textuais produzidos por lideranças, enfermeiros, estudantes, professores, idosos e jovens dos povos Apalai, Galibi Kalin’a, Galibi-Marworno, Karipuna, Palikur-Arukwayene, Tiriyó, Kaxuyana e Waiãpi.
Os materiais incluem documentos oficiais e registros produzidos pelas comunidades em formato multimídia, como áudios, vídeos e fotografias. “Inicialmente, a coleta foi realizada a partir do levantamento dos conteúdos coletados pelo projeto Coronarquivo, seguido do contato direto com os grupos responsáveis pelas publicações”, comenta Ian Marino. Após diálogos e acordos, foram coletados pelas equipes do projeto, responsáveis pelos primeiros depósitos no acervo.
Infraestrutura para preservação e acesso
Para garantir a preservação digital de longo prazo, o Memorial Digital adota o modelo OAIS (ISO 14721), padrão internacional que orienta a organização e a segurança de repositórios digitais. A partir de então, utiliza duas soluções de forma integrada: o Archivematica, que viabiliza a ingestão e organização dos arquivos, e o Tainacan, que permite o acesso público aos documentos.
Essa estrutura possibilita a continuidade do depósito de arquivos por grupos e pessoas interessadas em doar coleções. Também permite que conteúdos sensíveis sejam armazenados com acesso restrito, enquanto outros podem ser disponibilizados publicamente, conforme acordado com os doadores e de acordo com o Plano de Preservação do projeto.
Próximos passos: ampliação do acervo e participação de novos grupos
Após o lançamento do Memorial Digital, espera-se que novos grupos realizem depósitos de forma autônoma, ampliando progressivamente o acervo histórico.
Para saber como ceder documentos ao Memorial Digital, o usuário interessado pode baixar a Cartilha de Compartilhamento de Coleções, que orienta sobre os procedimentos necessários para efetivar a doação, e entrar em contato com as equipes técnicas por meio do portal, na página “Memorial > Compartilhe sua coleção”.
“Quanto mais a sociedade passa a operar por interfaces digitais, e-mail, WhatsApp, redes sociais, mais efêmeras ficam as evidências da nossa experiência, e paradoxalmente, quanto mais difícil se torna preservar a memória, mais necessária ela passa a ser.”
Thiago Nicodemo, coordenador da equipe de preservação digital do projeto.
“O Memorial Digital foi projetado com a intenção de salvaguardar, em um lugar seguro, as memórias da pandemia. O nosso objetivo foi criar um espaço onde as pessoas pudessem depositar seus registros e, posteriormente, consultar esse material de forma rápida e simplificada.”
Ian Marino, coordenador de curadoria e arquivamento do projeto.
Saiba mais: Memorial Digital da Pandemia de COVID-19, CCMS/MS, BIREME/OPAS/OMS, OPAS, Centro de Humanidades Digitais da Unicamp.