Diários da pandemia — Olimpíada Nacional em História do Brasil

Diários da pandemia — Olimpíada Nacional em História do Brasil

Sobre a coleção

No início da pandemia de COVID-19, cerca de 30 mil pessoas, de diferentes faixas etárias e regiões do Brasil, atenderam ao convite do projeto Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para escrever um diário sobre a experiência da pandemia. A iniciativa resultou em um acervo expressivo, produzido nos primeiros meses da quarentena, entre abril e maio de 2020, composto por relatos que registram impressões, transformações do cotidiano, dúvidas, incertezas, sentimentos e emoções vivenciados naquele período. Do conjunto original, apresenta-se aqui uma amostra do material coletado, cuja incorporação ao acervo encontra-se em andamento e será ampliada progressivamente.

Sobre o projeto

O projeto de extensão, divulgação científica e ensino de história denominado Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), iniciado em 2009 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), reúne anualmente estudantes e docentes de história que realizam provas e tarefas ao longo de algumas semanas. As questões e atividades são todas baseadas em documentos históricos e emulam os procedimentos do historiador: leitura de documentos, crítica da fonte, criação de hipóteses. Em suas últimas edições, a ONHB contou com mais de 200 mil participantes, de todos os estados da federação, sendo o maior projeto de extensão relacionado à educação básica da universidade.

No ano de 2020, impactada pela pandemia de COVID-19 que se encontrava ainda em seu início, a Coordenação da ONHB decidiu suspender a prova tradicional e criar uma atividade denominada “pré-ONHB”, não mais voltada a participantes em idade escolar, mas a todo e qualquer interessado, em que os participantes produziram um diário naqueles primeiros meses da quarentena. Foi criado formulário para preenchimento que depois foi transformado em um objeto virtual, com formato e características de caderno, com capa personalizada e páginas que ao virar produziam som.

Desta atividade resultou um acervo notável sobre as primeiras impressões da pandemia, nos meses de abril e maio de 2020. Ao observar os diários percebemos como nas primeiras semanas há uma espécie de animação entre os participantes, pela mudança de rotina ou por estarem em suas casas. Com o passar dos dias, essa impressão inicial foi sendo substituída por medo, preocupação e incerteza. A produção dos Diários da Pandemia foi uma forma de gerar relatos escritos sobre as alterações na vida cotidiana — no âmbito do trabalho, lazer, alimentação, higiene… —, bem como registros de sentimentos e emoções, constituindo uma “fotografia” do início da pandemia de COVID-19 no país.

A inspiração
Os Diários da Pandemia se inspiraram no experimento Mass Observations (Reino Unido), um trabalho de pesquisa iniciado em 1937 que atravessou toda a experiência da Segunda Guerra Mundial e que foi retomado na década de 1980. Nele, as pessoas relataram seus cotidianos de forma escrita e desenhada. Por essa razão, optou-se por centrar nos gestos e vivências cotidianos as perguntas do diário, pois eles revelam as percepções dos indivíduos sobre o mundo a seu redor e suas transformações. Ao longo da atividade, viemos a saber de outras iniciativas semelhantes, como A Journal of the Plague Year: An Archive of COVID-19, feita por historiadores e artistas norte-americanos e a iniciativa da Universidade de Luxemburgo, History in the Making: #covidmemory que trazia para o espaço da história digital narrativas sobre a pandemia.

A proposta também se baseou em exemplos no campo da literatura, como o romance Um diário do ano da Peste, de Daniel Defoe, que registrou a epidemia de peste bubônica no ano de 1665.

A produção dos diários
Para a produção dos diários, foi necessário explicar, em especial aos participantes mais jovens, o que era um diário: “um lugar onde as pessoas registram o que lhes aconteceu em determinado momento, suas impressões sobre a vida, seus relacionamentos e o mundo ao redor. Há algumas décadas, os diários eram cadernos ou folhas em que as pessoas escreviam suas experiências pessoais. Eram bastante íntimos, e por vezes fechados com chave e cadeado. Com o surgimento da internet, muitos passaram a narrar fatos pessoais de forma aberta a um público mais amplo, em novos formatos: blogs em que as pessoas escrevem suas impressões; posts no Facebook ou outras mídias em que as pessoas narram algo que aconteceu com elas, até mesmo por meio de fotografias e imagens, como ocorre no Instagram e outras mídias”.

A atividade foi concebida em duas etapas.
A primeira etapa da atividade consistiu em registrar, a cada semana, impressões sobre o que estava acontecendo. Todos os participantes receberam as mesmas diretivas, com “entradas” no diário de 1200 caracteres para discorrer sobre alguns temas: a) Trabalho/Estudo; b) Lazer/Descanso; c) Relação com o próprio corpo, objetos e outras pessoas; d) Alimentação; Impressões e sentimentos. A cada semana os respondentes podiam escolher um “emoji” a partir de uma lista, indicando o que melhor refletia a emoção predominante da semana, assim como uma imagem ilustrativa. A sugestão da ONHB era que a pessoa tirasse uma fotografia, fizesse um desenho, utilizasse uma imagem encontrada num livro ou na internet — sendo necessário título e fonte.

Ao longo do preenchimento, também era possível deixar partes sem preencher ou mesmo “em branco”, com apenas algumas palavras, “emoji” ou imagem. Todas as formas de responder às atividades foram consideradas válidas. Para a tarefa de modo geral, que nas provas regulares da ONHB valem pontos a cada etapa, foi suspensa qualquer correção: as pessoas foram aprovadas para todas as fases, e os diários aceitos de qualquer modo.

A segunda etapa do Diários da Pandemia consistiu em redistribuir, para outros participantes da Olimpíada, os diários produzidos. A distribuição foi realizada entre os participantes interessados, mediante autorização expressa, e se deu mediada por algoritmo que permitiu um “encontro” virtual entre pessoas de diferentes faixas etárias e regiões do país. Por se tratar de relatos sensíveis, os diários contavam somente as iniciais de seus autores, a idade e o lugar de onde a pessoa escrevia. Para esta etapa, o desafio era se imaginar um “historiador do futuro”, que havia encontrado, no ano de 2050, diários produzidos no ano de 2020. Cada participante recebeu 20 diários para ler e comentar.

Os Diários da Pandemia buscaram ao mesmo tempo respeitar a privacidade e a necessidade de compartilhar o que se sentia. Parte dos resultados se deve à concepção de design (Preface Design), que individualizou os resultados e que concebeu cada etapa de uma forma fácil de preencher e acompanhar, tendo sido premiados pelo Brasil Design Award.

Cristina Meneguello
Coordenadora geral do projeto Diários da pandemia – Olimpíada Nacional em História do Brasil

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Olimpíada Nacional em História do Brasil

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Diários da pandemia — Olimpíada Nacional em História do Brasil

A ação criada durante a pandemia foi uma forma de a Olimpíada Nacional em História do Brasil acolher as pessoas e contribuir para uma atividade ao mesmo tempo lúdica e de aprendizagem.

Cristina Meneguello, coordenadora geral do projeto Diários da pandemia

Mais de 30 mil pessoas, de diferentes faixas etárias e estados da federação participaram da ação. Foi a primeira vez que abríamos a prova da Olimpíada para adultos, para ex-participantes, para participantes individuais ou em equipe (grupos de amigos/famílias).

Cristina Meneguello, coordenadora geral do projeto Diários da pandemia

Para a produção dos diários, foi necessário explicar - em especial aos participantes mais jovens, o que era um diário: “um lugar onde as pessoas registram o que lhes aconteceu em determinado momento, suas impressões sobre a vida, seus relacionamentos e o mundo ao redor".

Cristina Meneguello, coordenadora geral do projeto Diários da pandemia

Ao longo da segunda etapa da atividade, observamos nas redes sociais, os leitores de diários procurando encontrar uns aos outros. O anonimato que buscáramos proteger era desfeito ante mensagens como “quem pegou o diário de H.L, 14 anos, de Fortaleza?” ou então “li o diário de tal pessoa, quero te dizer para ter muita coragem”. Esta percepção nos fez acrescentar uma etapa não inicialmente prevista, que permitiu com que a pessoa leitora do diário pudesse enviar uma “mensagem” para a pessoa autora.

Cristina Meneguello, coordenadora geral do projeto Diários da pandemia

No último texto que a Olimpíada Nacional em História do Brasil - ONHB deixou naquele ano de 2020 para os participantes, comentamos: talvez não fosse essa a forma historiográfica mais adequada para lidar com a história do tempo presente, mas era evidente que a pandemia estava gerando, em tempo real e na chave do testemunho, seus próprios registros – que poderiam vir a ser trabalhados, um dia, documentos históricos. A publicação deste acervo cumpre, ao menos em parte, esta promessa.

Cristina Meneguello, coordenadora geral do projeto Diários da pandemia


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