Varal de emoções – diário virtual sobre o período do COVID na favela da Rocinha

Varal de emoções – diário virtual sobre o período do COVID na favela da Rocinha

Sobre a coleção

A coleção é composta por capturas de tela, fotografias e vídeos publicados na conta do Instagram Varal de Emoções, criada por Jennifer Monteiro e Maria Alice Balbino, moradoras da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. O conteúdo registra o cotidiano da comunidade, reunindo depoimentos de moradores sobre como vivenciavam a pandemia. Além disso, integram a coleção materiais de pré-produção como o projeto, imagens das gravações e fotografias do processo de desenvolvimento do conteúdo, que evidenciam, em um momento de grandes incertezas e dificuldades, a importância da memória e da expressão das próprias vozes para a consolidação do pertencimento à comunidade e para a construção da relação com “os de fora”.

Sobre o projeto

“Duas faveladas com o objetivo compartilhar diferentes sensações nesse período de pandemia” é como se definem Jennifer Monteiro e Maria Alice, moradoras da Rocinha, no Rio de Janeiro, criadoras de conteúdo do “Varal de Emoções”, uma conta na rede social Instagram.

O “Varal de Emoções” foi criado em maio de 2020, durante a quarenta, quando Jennifer e Maria Alice Balbino participaram do curso “COVID-19 na Rocinha”, organizado pelo coletivo A Rocinha Resiste, Museu Sankofa, Jornal Fala Roça em parceria com o Instituto Moreira Salles. “O curso teve como objetivo fazer registros da pandemia na favela da Rocinha sob olhar do morador e potencializar o alcance desses trabalhos de dentro para fora, ressaltando a capacidade dos habitantes em registrar sua própria memória”, explicam as idealizadoras do projeto.

O curso ofereceu um aprendizado amplo com a finalidade de instrumentalizar os participantes a criar meios de comunicação e interação dentro da Rocinha e também possibilitar o entendimento dos moradores de fora da comunidade sobre como é viver na favela. O Varal de emoções é fruto dessa experiência e aprendizado.

Inspiradas na ideia de um diário, Jennifer e Maria Alice conceberam no Instagram um diário virtual compartilhado, a dupla explica a escolha do nome para o projeto:

“Toda casa na favela tem um varal na laje, é uma marca nossa. Nesse varal, ao invés de roupas, foram nossas memórias. E emoções? Por dois motivos. O primeiro é o sentimento diante de algum fato, situação, conversa ou notícias. Estamos sendo rodeados por fortes emoções nesse período de quarentena. O segundo motivo é que, lembram de algo que tem aqui dentro com esse mesmo nome? Sim, o nosso tão famoso Emoções, local onde acontecem festas, bailes ou nossa feirinha de roupa aos sábados (bateu a saudade né? Hahah).” ⠀⠀⠀⠀

Jennifer e Maria Alice, duas jovens que escolheram desenvolver um projeto que dialogasse com os habitantes da Rocinha e conseguiram conciliar leveza e a seriedade necessária para a realização de uma iniciativa relevante para o território do qual fazem parte. O projeto teve como objetivo evidenciar o olhar dos moradores sobre as diversas dificuldades enfrentadas durante a pandemia, somadas a problemas persistentes, como doenças,  falta de recursos básicos para a sobrevivência — de saneamento à escassez de água — e os desafios do isolamento compulsório diante diante da própria configuração arquitetônica precária da favela, entre outras.

Para o projeto, foram realizadas entrevistas com seis moradores e, posteriormente, foram produzidos textos a partir dos temas evidenciados nas falas dos entrevistados, bem como peças gráficas informativas destinadas à sensibilização do público e ao convite para assistir às entrevistas editadas e publicadas na rede social.

Na construção do projeto, Jen e Malice, como são chamadas, tiveram como referências Renata Souza, com o livro Cria da favela; os escritos da poeta periférica Tula Pilar Ferreira; o livro Varal de Lembranças, elaborado por estudantes da Rocinha em 1983, em plena ditadura civil-militar; e a tese de Mariana Costa, A Rocinha em construção: a história social de uma favela na primeira metade do século XX, defendida em 2019.

O resultado é um material vibrante que fala de aprendizado, dos processos, da elaboração do pertencimento comunitário em meio às dificuldades e do compartilhamento da vida em uma das localidades mais expressivas do país. Reconhecimento e valorização da experiência de dentro, para construir pontes e diálogos com os de fora.

Jennifer Monteiro e Maria Alice Balbino por elas mesmas

Sou Jennifer Monteiro, nascida e criada nessa imensidão incrível que é a Rocinha. Estudei todo ensino fundamental em escola pública, mas com muita dedicação — e sorte — consegui uma bolsa integral em um colégio privado com um grande nome. Lá tive a oportunidade de ter um ensino com qualidade que muitos dos meus, infelizmente, não conseguiram. Como consequência de três anos intensos no Ensino Médio, através do PROUNI, entrei em 2017 para uma das maiores faculdades do Rio, a Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ).

Durante essa minha vida na graduação, pude ter acesso a muitos autores, estudos e pesquisas sobre diversos temas, em especial sobre as favelas. Fiz pesquisas próprias sobre a Rocinha que abriram meus olhos e ali construí uma visão acadêmica do lugar onde vivo, mas me faltava sentir de perto e absorver as vivências do meu lugar de origem longe do mundo estudado pelos de fora. Com o tempo, fui me aproximando da Rocinha cada vez mais e desenvolvendo um sentimento de pertencimento que se consolidou logo após o curso COVID-19.

Com o Varal, junto com a Maria Alice, tive a possibilidade de expandir e compartilhar meus estudos universitários para com os meus. Nosso objetivo maior foi retribuir ao nosso lugar de nascimento tudo aquilo que fomos adquirindo no espaço acadêmico e inspirar outras pessoas a construírem uma história diferente do que nos estigmatizam.

Prazer, me chamo Maria Alice Balbino, nascida na Rocinha, filha da escola pública, cursei Ensino Normal, também conhecido como formação de professores, e sou graduada em História pela PUC-RIO. Apesar de nascer na favela, tive a adolescência fora dela, morei por anos em Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro e retornei para a Rocinha no final de 2013, início de 2014, quando consegui uma bolsa de estudos pela PUC.

Passamos muito tempo fora da Rocinha e acabamos nos distanciando do nosso local de moradia. Transformar o que aprendi durante a graduação para comunicar aos moradores sobre a importância do registro histórico foi um dos maiores desafios como pesquisadora. Me redescobri como moradora da maior favela da América Latina e assumi meu papel como historiadora, pesquisadora e favelada, ao registrar com coração esse momento tão difícil em nossas vidas.

Tenho orgulho em ressaltar que fui bolsista PIBIC com o tema “Os pequenos clubes dançantes no Rio de Janeiro na Primeira República” com orientação de Leonardo Pereira, bolsista PIBID com orientação do Ilmar de Mattos e minha monografia foi sobre a importância do Patrimônio Imaterial por meio do Jongo do Sudeste, com orientação de Iamara Viana, grande professora e pesquisadora.

 

Saiba Mais

Entrevista de Jennifer Monteiro e Maria Alice Balbino para o Museu da Pessoa.

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Varal de emoções – diário virtual sobre o período do COVID na favela da Rocinha

Toda casa na favela tem um varal na laje, é uma marca nossa. Nesse varal, ao invés de roupas, foram nossas memórias. E emoções? Por dois motivos. O primeiro é o sentimento diante de algum fato, situação, conversa ou notícias. Estamos sendo rodeados por fortes emoções nesse período de quarentena. O segundo motivo é que, lembram de algo que tem aqui dentro com esse mesmo nome? Sim, o nosso tão famoso Emoções, local onde acontecem festas, bailes ou nossa feirinha de roupa aos sábados (bateu a saudade né? Hahah).⠀

Jen e Malice, criadoras do Projeto Varal de Emoções

A quarentena nos trouxe uma sobrecarga de sentimentos e sensações muito intensas. Fora que nos deixou mais nostálgicos, angustiados e ansiosos querendo expor tudo que está sendo sentido nesse período. Para nós favelados, não ter um espaço que mostre as infinitas Rocinhas que existem é triste. Com isso, quisemos ser esse veículo de lembranças, fazer um acervo de relatos com outros moradores no local em que todos estão interligados atualmente.

Jen e Malice, criadoras do Projeto Varal de Emoções

Sabemos da importância da construção de um patrimônio histórico deste período e porque não ser construído por moradores e para moradores? Chimamanda Adichie destaca o perigo de uma única narrativa. Historicamente a favela é vista com um olhar de fora e apenas é vinculada a notícias ruins. Somos mais do que dias de intensos tiroteios e temos uma rede de coletividade a ser exaltada. Já somos diariamente marginalizados, chegou a hora de mostrar o quanto somos potências.

Jen e Malice, criadoras do Projeto Varal de Emoções

Vale destacar que para além da importância dos registros, queremos que os moradores consigam perceber o grande império que esta comunidade é e o quão forte são as pessoas que nela habitam.

Jen e Malice, criadoras do Projeto Varal de Emoções

O projeto teve como objetivo fazer registros da pandemia na favela da Rocinha sob olhar do morador e potencializar o alcance desses trabalhos de dentro para fora, ressaltando a capacidade dos habitantes em registrar sua própria memória.

Jen e Malice, criadoras do Projeto Varal de Emoções


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